domingo, 30 de outubro de 2011

Um pássaro que voou por nossas vidas...

No começo da semana, chegou um rapaz na clínica com um passarinho verde embrulhado em alguns guardanapos, ele disse: "achei este passáro, ele está sangrando muito...."
Pegamos o pacotinho e colocamos na mesa de atendimento.
As narinas dele estavam cheias de sangue, o pobrezinho não conseguia ficar em pé, tombava para o lado em câmera lenta. Falei: "acho que ele vai morrer". 
Limpei e tentei aliviar a respiração, mas os dois buraquinhos minúsculos do nariz minúsculo estava completamente tapado. Peguei uma seringa de insulina, também minúscula e suguei o interior das narinas. Saiu muiiiiiiito sangue !!!!!
Não sabemos o que aconteceu, talvez tenha batido a cabeça, um trauma hemorrágico?
Após a sucção, ele começou a firmar as perninhas e ficou mais aliviado, ou seja, conseguia respirar. Mesmo assim, ainda achava que o risco de morte era grande. Infelizmente, as aves não demonstram muito  bem os sintomas e morrem sem aviso prévio.
A Camila, amiga e sócia do pet, me ajudou e apaixonou-se instantaneamente. Acho que era recíproco, ele  ficava super bem com ela.
Avaliei melhor, era um pequeno passarinho verde, da classe dos psitacídeos, um periquito.
Como a Camila estava muito empolgada com a ave, me preocupei e alertei mil vezes que ele ainda poderia morrer.
Arrumamos uma gaiola, oferecemos ração, brócolis, água, improvisamos galhos de árvores como puleiros, e observamos: a cada minuto parecia melhorar mais e mais.
Resolvemos soltá-lo, talvez ele fosse da natureza. A Camila colocou em um vaso de planta no jardim e acreditem, ele não voou, simplesmente ficou ali, olhando pra nossa cara. Nos afastamos...nada... talvez não estivesse tão bem assim?
Passou mais um tempinho e fomos novamente tentar a liberdade.....nada, ele não voava, talvez fosse de alguém e não estava acostumado a voar?    Não sabemos, só temos certeza que ele não queria ir embora.
Fomos pra casa, e Giorgio, este foi o nome escolhido pela Camila, ficou dormindo.
Será que ele estaria vivo no dia seguinte?

- Sim, no dia seguinte, ele estava ótimo! Comecei acreditar que tudo daria certo!
Iniciamos uma alimentação reforçada, banana com ração na boca, ele gostou tanto que logo começou a devorar sozinho.
Certo momento, a Camila estava na loja com o Giorgio no ombro, quando ele deu um vôo rasante que foi parar no meio da rua... a ensandecida da Camila saiu correndo (mais parecia uma louca) quando viu que ele aterrisou no meio do asfalto e ali ficou... Dois loucos, Giorgio e Camila correndo risco de serem atropelados... Depois deste episódio concluímos que Giorgio era sem noção e tinha muito o que aprender!
Arrumamos uma casa nova, olha a foto ao lado, ele adorou, até passarinhos da vizinhança vinham na varanda conversar com ele. Virou uma festa!



"Ontem, sábado, infelizmente Giorgio amanheceu morto.....não sabemos o que aconteceu, como eu disse anteriormente, as aves não demonstram sinais de doenças, simplesmente morrem".

Sem palavras...



domingo, 23 de outubro de 2011

Pequeno Marley -parte II

Domingo de manhã, dia de passear com Jack, guia na mão, saquinho para o cocô e pé na rua.
Ele, como sempre animadíssimo, andamos mais ou menos 3 km, voltamos pra casa e percebi Jack mais cansado do que o normal,  pensei "é melhor descansar". No horário do jantar, ele não quis comer, isso também não é normal... começei a me preocupar, Jack não está bem.
Segunda de manhã, ele não comeu de novo, vamos pra clínica comigo! Coletei sangue para exames, confesso que até uma simples coleta de sangue nos meus animais se torna um ato difícil para mim. Resultado: doença do carrapato de novo, Erlichiose, doença que parasita as células do sangue, resultando em severa anemia. Existem três tipos: aguda, subclínica e crônica. Jack tem a crônica. Na mesma noite, iniciei o tratamento. Após 3 dias, ele não apresentava nenhum sinal de melhora, entrei em pânico. Precisava  de uma transfusão de sangue, muita dúvida,  a infecção não cedia. Tinha que raciocinar, não tinha cérebro, o sentimento era muito maior que minha razão.
No mundo veterinário, tudo é mais lento do que na medicina humana, tive muita dificuldade em conseguir uma bolsa de sangue para fazer a transfusão, mas consegui e Jack ficou tomando sangue por seis longas horas. No início da transfusão, o hematócrito (taxa que determina o volume de hemácias-células do sangue) estava em 10%, sendo que o valor ideal mínimo é 37%, ao final da transfusão tinha conseguido subir até 26%.
No dia seguinte, ele estava mais animadinho, ainda muito fraco, comeu um pouco. Recorri a conselhos e ajuda psicológica de amigas veterinárias (diga-se de passagem: grandes amigas!). Eu entendo porque médicos não podem cuidar de seus entes queridos. É muito mais dolorido quando são nossos!

Jack Sparrow teve uma anemia hemolítica secundária à Erlichiose, ou seja, ele mesmo destrói as células do sangue dele. Precisei entrar com medicações para alterar o sistema imunológico.
Ele está se recuperando muito lentamente, precisará de cuidados para toda vida.
Sem problemas, meu pirata, tô aqui pra isso!


domingo, 16 de outubro de 2011

Dicas de Saúde Animal

Me perguntei: como posso ter um blog que fala de animais, sem ter uma postagem que dê dicas de como tratá-los??
Então, vamos lá:


- Vacinação: As vacinas protegem contra diversas doenças, devem ser iniciadas nos primeiros meses de vida e repetidas anualmente.


- Vermifugação: ideal a cada seis meses em animais adultos e cada três meses enquanto filhotes.


- Alimente seu filhote três vezes por dia, animal adulto duas vezes por dia.


- Água limpa e fresca diariamente. Nos dias de verão mantenha a água fresca com pedras de gelo.


- Em dias de calor, passeie somente nos horários mais frescos, ande pela sombra, seu pet tem coxins (almofadinhas) nos pés e eles se queimam no chão quente.


- Obesidade não é sinal de saúde e sim de doença.


- Castre seu animal.


-  Faça um checkup semestral ou anual, prevenir é sempre o melhor remédio. Principalmente em animais idosos.


- Escove os dentes diariamente, a presença de tártaro causa danos a saúde.


- Gatos se estressam facilmente, cuidado com mudanças de ambiente, alteração de rotina, objetos, animais ou pessoas novas na casa.


- Use antipulgas e anticarrapaticidas, parasitas trazem doenças.


- Quando for levar seu pet em viagens, se informe sobre profilaxia de doenças regionais.


- Animais sentem dor, o limiar da dor é muito maior que o limiar dos humanos. Fique atento aos sinais.


- Não medique seu animal sem consultar um veterinário. Alguns remédios de humanos podem intoxicá-los.


- Cuide bem deles, amor causa amor.


- Banhos são bem-vindos, cuidado com excessos.


- Corte as unhas com a ajuda de um profissional.


- Cães e gatos de pêlo longo precisam ser penteados diariamente, existem escovas (rasqueadeiras) apropriadas.


- Animais de pele clara, quando expostos ao sol, devem utilizar protetor solar próprios de animais.


- Sempre que tiver dúvida, recorra a um veterinário.


ESTOU À DISPOSIÇÃO.

domingo, 9 de outubro de 2011

Uma Buldog que dá vontade de morder!!

Atendi uma pequena cadela Buldog, branca e preta, de 7 meses, nome Vicky,  com uma bolinha vermelha no canto do olho, era uma protusão da glândula da terceira pálpebra, isso mesmo, o cão tem três pálpebras, dentro tem uma glândula que pode ficar para fora. 
A correção é cirúrgica. 

Normalmente, quando há protusão em um dos olhos, isso pode ocorrer também no outro olho. Conversei com os proprietários e decidimos esperar um pouco, para ver se saía a glândula do outro olho.
Passado um tempinho, resolvemos não esperar mais e fizemos a cirurgia. O procedimento consiste em sepultar a glândula dentro da pálpebra.
Cirurgia foi feita e tudo correu muito bem. A Vicky precisou usar o conhecido colar elizabetano, aquele que parece uma cúpula de abajur para impedir que ela coçasse o olho com a pata. Durante seis dias de recuperação, ela ficou conosco no hotel, porque seus pais tinham ido viajar. Adoro isso!  Pude mimar a pequena com todas as minhas forças....no final do dia, pegava a Vicky e levava para minha sala, onde ela me lambia até cansar e depois dormia no meu colo!   Que delícia, ela até roncava, muito gostoso!
Seus pais voltaram de viagem e sete dias após a cirurgia Vicky foi pra casa.
No dia seguinte, eles me ligaram dizendo que a vagina dela estava enorme e ela não parava de esfregar no chão. Pedi para vê-la.
Quando ela chegou, meu santo!!... a perseguida da bichinha que mede mais ou menos 1 cm, estava enorme, parecendo uma maça vermelha e assada!!! Coitadinha...devia estar doendo e coçando demais, porém, como ela usava o colar abajur, não conseguia lamber, então esfregava no chão causando maior irritação, era assadura pura!.. eu sentia arder.... diagnóstico: vaginite. Preescrevi o tratamento, inclusive medicação para dor.
No final da tarde, recebi uma ligação, era o proprietário da Vicky em pleno desespero! Ela não parava de raspar no chão, nem a pomada ele tinha conseguido passar, pois cada vez que  passava, ela logo esfregava em algum lugar, disse que a chão da casa estava cheio de pomada... não conseguia imaginar a cena!... Instruí uma medicação para acalmar o prurido e lhes dar um pouco de sossego.  

No dia seguinte, a Vicky melhorou, dormiu em paz e sua shaninha voltou ao tamanho normal. Ah...também teve alta do olho e pôde ficar livre do colar!
Agora é torcer para não sair a glândula do outro olho......

Vicky, uma lambida especial pra você!


domingo, 2 de outubro de 2011

Muito triste......

Ontem precisei eutanasiar uma cadela.
A eutanásia é a pior situação que um veterinário vivencia. Eu odeio quando chega esse momento. Estudamos 5 longos anos de faculdade e todas as atualizações que existem para fazer os animais viverem, não morrer.
É claro que lançamos mão disso como último recurso e com o objetivo de aliviar o sofrimento de um animal, mas o sacríficio significa que a medicina perdeu para a doença. É uma derrota... eu me sinto derrotada e com um aperto no coração que chega a doer.....
A história começou em maio deste ano, quando atendi a Kika, uma Golden Retriever, 32 kg, 11 anos, completamente loira e linda!  Kika tinha um tumor de mama.
Ao examiná-la, as características do tumor eram um mau presságio. Existem vários tipos de tumores mamários, benignos e malignos, porém o tipo da Kika era muito específico e achei que pudesse ser um carcinoma inflamatório, mas o diagnóstico definitivo só é feito após a retirada do tumor e o exame histopatológico que identifica o tipo tumoral.
A cadeia mamária (a cadela tem 5 ou 6 mamas de cada lado) direita estava bem acometida e indiquei aos seus proprietários a cirurgia. Se fosse confirmado a malignidade do tumor, iniciaríamos a quimioterapia.
Na mesma semana, agendamos a cirurgia e fiz a mastectomia parcial. A Kika se recuperou muito bem, mesmo sendo uma cirurgia bem drástica, ela se superou e teve um pós operatório excelente.
Encaminhei o material retirado para exame, demorou 10 dias e o laudo confirmou minha suspeita: carcinoma inflamatório. Muito triste... Comuniquei o resultado aos proprietários, inclusive o prognóstico deste câncer, que na literatura veterinária é de 30 dias de vida. Decidimos iniciar a quimioterapia para dar-lhe mais tempo com qualidade de vida.
Eles toparam! Iniciei um protocolo a cada 21 dias, ou seja, a cada 3 semanas eu pegava uma veia e administrava a medicação. Acredite, enquanto eu pegava a veia para inserir o cateter, ela me olhava...somente me olhava, não precisava ninguém segurá-la ou me ajudar, ela nem rosnava, só olhava!!
Quando a Kika chegava na clínica e eu iniciava os quimioterápicos a Patrícia Cicarelli (a Kika adorava ela) ficava sentada no chão do lado dela. Tem amor mais lindo?!! Depois das sessões de quimio, ela se alimentava e ia pra casa. 
Foram quatro meses de tratamento  e nos três primeiros ciclos ela respondeu muito bem. A grosso modo, a quimioterapia destrói as células malignas, mas também destrói as células saudáveis do corpo, ou seja, depois disso tudo Kika estava fraca, e começou a não comer ou até vomitar. Era o começo do fim...
Neste último sábado, fomos chamados para ver a Kika, fui eu e a Patrícia. Ela já não se levantava mais e também não comia nada. Como é difícil... Com muita dúvida, mas certos que era o melhor pra ela, seus proprietários optaram pelo alívio do sofrimento.
A Patrícia e o Tiago me ajudaram. Fizemos isso com muita dor e lágrimas, mas com toda a certeza ela precisava desse alívio.
Kika, minha loira, descanse em paz !!!